lastro da lesma

“) escrever como quem constrói um labirinto |”
(Micheliny Verunschk)

no decorrer do passo, a língua cede. cede porque tropeça, porque sobeja, porque lambe, me pergunto. porque lambe a língua. digo, enquanto pastamos todos, poucos regurgitando, enquanto esperamos todos, digo, essa espera trôpega, batendo em semáforos, orações, códigos, faces. fascículos de desgraças, obras completas do belo, tijolos de ameaças, muros de seres, enquanto nessas latrinas latrinas de gente em gravatas, sem nenhuma -sofia na alça, uma terceira guerra de golpes
e eu em mim me pergunto muito depois de dormir
onde a língua cede o passo que não me acompanha nos pés
onde a língua, o verbo, a cor
do som
do tom
da voz

no decorrer do passo, a língua é sede. sede porque onera, porque almeja, porque trilhos cansam. e por que a língua lambe, me pergunto. porque lamber é como olhar a lesma. porque lamber é esse tempo que limpa o pulmão da neblina enquanto a lesma quase não se moveu. porque lamber é mover os dedos da língua. é o verbo que bate nos dentes. o verso que arranca do urro silêncio. a lombada do tempo
a língua

o labirinto da escrita

Anúncios

4 de maio

memória, essa lâmina que não vem só com corte mas o cheiro dos móveis o vapor do olhar a temperatura do dolo
as horas em torno

memória, esse espólio
que escava
regurgita
apodrece
o urro mais largo
o vazio da prece

memória, essa língua dentada
esse punho tombado
essa voz sem assento

memória
esse eco sozinho
esse tempo sombrio

a saudade de cada

pala

delícia quando a palavra vai beliscando os dentes e escorrega no lábio dá passos de dança na língua desliza para a garganta passando pés no céu da boca como que sorrindo de ser criança que não tem a mínima noção preocupação ilusão do tempo que importa se ela morde a própria boca a palavra livre leve louca a palavra que desliza e rasga que seduz e prega que acalenta e ataca. desata na garganta amaciando aldravas. pousando unhas nas margens. caçando angústia na fonte. a palavra morde molda emula. imita. mimese driblando o referente. a palavra encerra e enleva a palavra. isca.

(In memoriam: Tiago e Diogo e uma grande parte boa de mim)

de lembrar dos seus olhos gêmeos
das suas mãos gêmeas
do seu amor gêmeo
lembro das suas vozes nuanças
das suas pintas distintas
dos seus sonhos dormindo
das suas formas de desenhar histórias sem ler
(havia aquele homem parado de chapéu no material didático que ficou pensando na vida e morreu)
cada qual um ninho que só queria
minhanossa
onde é que mora o perigo
onde é que ronda o inimigo
onde é que está o poder
quem é que cuida não de nós criaturas com roupa passada título carteira de habilitação casa quitada plano da unimed apartamento vista pro mar vista pro céu vista com óculos de grau faxineira iptu em dia sapato pra chuva sapato pro sol sapato pra missa antivírus ah sim carne fresca pão circo acesso reprodutibilidade semáforos furados filas direitos
mas
me dá uma licencinha que eu preciso saber com a dor de quem sente os dedos sujos a boca seca a garganta murcha o olho imundo o estômago sem força mais pra reler
quem é que cuida de quem não tem discurso não tem sobrenome não tem tíquete não tem idade para já precisar ser homem correr de tiro descalço cair em hospital com barata não enxergar a folha em branco a sua vida quanto mais platão na caverna com a vista quadrada multada tachada estampada filmada ardida riscada pisada cuspida baleada
baleada
são tiros gêmeos do meu do seu dessa nossa história que nunca cedeu lugar tampouco agora pra sequer poder deitar em um manto coberto de dignidade e quem sabe ao menos uma vez na vida silêncio
não tenha pressa
não corra não chore não morra
porque agora
ouça a canção de ninar
não há violência não há crueldade não há insegurança desproteção fuga falta de moradia saúde educação comida arte prazer diversão
não há medo. não há bicho no escuro. não há polícia e ladrão. não há mais

o mundo é que segue

talvez até seja por isso não conseguir. eu me lembro, sim, da rosa e suas pétalas que não se quebraram nas minhas mãos tão pequenas, não tinham crueldade não tinham terror não tinham sangue, mas hoje. hoje não há sequer pétalas, não há rosas, não há cantos, não há o cheiro do estrume as cidades os habitantes os utensílios nas nuvens não há grama orvalho sequer lágrima o olho é um terreno árido, árduo, ardiloso. o olho tem sido voraz, algoz. e dói a memória quando sopra aquele ar no olho de areia. a memória é esse vento com a personalidade instável do mar? onde estão minhas unhas limpas minhas costas leves minha fé calma? e o tempo aquele intervalo não importa a hora? se se cavar fundo, se se cavar com força com tempo com ganas se encontra a paz? se se cavar rápido voraz cuidando para que ninguém alcance para que ninguém roube porque hoje há milhares de vilões à solta caçando, sabe, aquele descuido aquele intervalo sem vigia aquela porta aberta. por isso é preciso usar aldravas ferro fogo armas rimas. mas.

há um buraco enorme na língua.