deste tempo de dentes esmaltados de ódios, onde já não há mais verdade. já houve? neste tempo em que opiniões mudam conforme o valor, que a moeda nunca é ética. o que é ética? há mãos que lutam violentamente por educação e saúde. violentadas. este tempo em que mais vale temer que dormir com dignidade. que respeito já não tem mais verbo. quantos louros para ponderar? paciência na mesma mão da passividade. mentira na mão da omissão. rimas pobres, televisores de cabeceira, seres humanos inanimados. este tempo que não tem mais lugar. tem pó? para voz. para ouvido. para nãos. anuncia, tempo, um passo, um bem, uma virtude? dá, sopro, um pouco mais de energia, quem sabe um suspiro, uma paz, uma noite que não seja, em algum momento, oca? que a vida tem sido uma dificuldade de crença. uma pérola branca no branco nu. vista-se. é preciso chegar, é preciso sair, é preciso ficar. é preciso? e não suportar: é preciso? descansa, ímpeto, que não há mais vaga no corpo. no coro. de cor. saudemos como se fôssemos um. brinde nos jantares, arroto no banheiro, vazio no cílio. que já não sabe chover. que a chuva lá fora volta. neste tempo de ruínas onde a história não brota. neste tempo, ouça bem, futuro, em que não há mais dois pontos?

poiesis

enquanto os risos escorriam nos pés
na grama
nos galhos
nos céus
dos outros no tempo
em que sempre voltamos
jamais estaremos

uma criança, longe, muda, exangue, sentada
num canto daquele muro
(como no canto dos outros muros que agora a
derrubam
feito um sino mudo)

nesse canto lhe deram uma rosa
era uma rosa comum, cor-de-rosa, jovem, justa, virgem
não soube o que fazer com tanta verdade
embora sequer soubesse disso
de que agora a memória sabe
do jeito que a memória sabe saber reticente

poderia ter passado a tarde toda
aquela criança
talvez eras
com a rosa nas mãos

poderia dizer do cheiro daquela pétala uma obra aberta
do tônus firme do seu corpo frágil
das inverossimilhanças do contorno
na sua cor silenciosa
dos rosas da rosa

se fosse dizível

mas quando o sol se punha
naquela época

pés sujos
risos suados
cabelos ventados
fôlegos rotos

mas a rosa
intacta
naquelas mãos tão pequenas meu deus e que já sustinham o medo
de ser túmulo

qual teria sido o erro
que cometeram aqueles dedos
incapazes ainda de todo mal que agora teciam tão displicentemente

tomaram-lhe a rosa sem
não foi sequer capaz de

despedaçaram todas as pétalas e sépalas
ouviam-se ranger suas veias
enquanto ensinavam que era assim
que se brincava com as flores

foi a primeira vez para ela
que a poesia
colheu o seu silêncio
humano

Por que não me lembro? Por que não me esqueço? Por que bato entre as paredes dolosas errando as verdades? Daqui, cato passados na memória como unhas quebradas num tapete felpudo, esmalto lembranças, revivo ranhuras

batendo em paredes
errando verdades
crivando mistérios
lixando misérias

conjugando no presente horas sem verbo
ainda que crostas frestas línguas
sons subalternos
mal saibam devir

onde eu melhor me encaixo
é no teu braço

não essa pele fácil
límpida
lisa
de que fala a aparência dócil do verbo.

digo do que há de ambíguo
da incongruência dos poros
do sabor do gemido
da alma
completamente heterônima
que habita
a película a moldura o dobre da tinta quando dobra
do teu braço

5 minutos

Queria lembrar como se faz para ser bom de novo. Acender uma esperança como acender um cigarro. Acreditar como se pôr no fim do dia. Regar os olhos como se não fosse pra fora. Deixar morrer lembranças daninhas, daquelas memórias que vêm como se fossem agulhas que dobram a esquina repentinamente velozmente abandonar o barco dos emboras. Trotar num campo de trigo ainda que haja semáforos. Fazer vasos de barro como quebrar vidros. Pontuar com vírgulas muito bem subordinadas. Falar calmo como se urrasse. Corresponder com brandura como se fodesse. Dormir como se pesadelos fossem sonhos. Mas a memória carcome até o caminho das crenças. Memória é isso de caminhar descalço, aprender a calçar e cultivar calos? Memória mora mais embaixo ou acima da parte que foi ficando grossa? Foda-se. Raspar a vida até chegar no osso. Aparecer como se sumisse absolutamente do cosmos, do universo, da via láctea cafeínica pólvora fumaça breu gota d’água. Caminhar como se houvesse músculos onde dorme a alma. Ter alma como se fosse uma. Romper os lacres como se comprasse balas armas e um – breve, de preferência ilustrado. Como se chama isso que vem com os eletrodomésticos, automóveis, móveis, objetos prontos ready mades remédios? Manualmente tecer uma boca que abre e fecha sorrindo na velocidade no tom no zoom na hora no nu tudo perfeito. Abrir a porta como se fechasse até a fresta mais carcomida da janela e explodisse lá dentro. Praticamente tudo como se absolutamente nada. Água como se cicuta. Sim como se não. Não como se pros infernos. Pros infernos como se deus tivesse enfim chegado com uma memória nova limpa enxuta de preferência lavanda.

helo sanvoy

fotografia: Helô Sanvoy

domingo, 17 de abril de 2016

do ódio que derrama dos dentes, independentemente da cor das gengivas, das camisas, das vias
da dor dos direitos lesados
do medo que descama nas mentes, dependentemente de vozes
que não vociferam virtudes
que não zelam
da história adquirida a suores a sangue a pancadas a vidas
ratos em vaginas
leis em latrinas
do absurdo de hastear a morte o golpe o cuspe o lustre
de deus da família dos nomes
instituições todas falidas
enquanto pisam repetidamente nos olhos nos ovos nos seios
do humano
ameaçado de mote
ameaçado de mote
Ameaçado de mote.