Poemas

indelével

eu queria mesmo era voltar a acordar de manhã, dar uma esticada na cama, ir no ioga, tomar café, conversar, ler, estudar, pesquisar, escrever, rir, reclamar e dormir sem acordar na madrugada olhando pro escuro com um medo que come toda a noite, sem olhar pro nada pro vazio pro penhasco pro pavor e dar bom dia apenas, sem engolir em seco respirar em seco mastigar em seco, sem
eu queria mesmo era ler uma página sem encontrar um verbo uma voz um exílio um divã pro desespero, encontrar o eco dos fortes que foram sem perder a força, perder o medo sem o tête-à-tête, ouvir o ódio sem odiar de volta
eu queria mesmo era o afeto antigo de afetos de agora sem a mancha indelével, sem a cruz e a arma, sem afeto ao luto
eu queria mesmo um poema broto na janela bem cedo, uma flor à espera, um silêncio imune sem a voz selada sem bomba-relógio sem sorriso roto
sem ser tão difícil acordar do sonho apalpar o medo sair sem correr eu queria mesmo

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tem dias que amanheço lembrando que sou forte, que sou ferro e que, se calhar, sou brasa. tem dias que amanheço com aptidão suficiente para gritar pra quem for que aqui na minha ilha não aceito expropriação. que aqui na minha angústia há guelras e já me disseram que aprendi a respirar. que aqui no meu oco eu espero. tem dias que amanheço de prontidão pra qualquer tipo de revolução. tem dias que amanheço líquida, rosa, gauche. tem dias que amanheço com os olhos não baixos. tem dias que não importa a lâmina. tem dias que não me importo com nada porque tudo é absolutamente relativo. tem dias que as notícias as estatísticas os fatos mais graves não me abalam. não abalam a minha f. tem dias que amanheço de olhos secos, alma enxuta, lençóis calmos. que me lembro de molhar as plantas, tomar banho, comer e todas essas atividades que não têm o menor sentido de dentro do túnel. tem dias que são implacavelmente. que amenizam todo e qualquer pavor paz urro. tem dias que são braços fortes. tem dias que olho o arquipélago como se fosse turista. tem dias que reclamo dos preços mas não perco o sono em silêncio. tem dias que eu consigo sair pelo humor. que amanheço de olhos pra fora. de voz equilibrista. de pé. tem dia que não é necessário repetir. não é necessário calar. não é necessário. tem dias que as palavras não cortam, que os medos suportam, que o ar não tem dificuldade de entrar. tem dias que eu não penso em fascismo em horror em socorro. que não corro. tem dias que não são plumas ao relento. tem dias que são só um filme. que são só calma, que pode não vir o pior. tem dias em que parece mentira que já estamos. que vamos. que. tem dias que amanheço uma flor no asfalto. tem dias que falo. tem dias que não me lembro de calar. tem dias que amanheço pra linha de frente. pro cálice. pra resistir até passar. tem dias valentes. muralha. labirinto. que acordo sem frio, que saio sem rumo, que falo sem pensar. tem dias amenos, atentos, isentos. tem dias que não.
tem dias que
os amigos
que andavam nas ruas
tem dias que
o sangue que era de sangue
tem dias
que
os números são só caracteres
valores não
tem dias que o abraço no aperto
entre o oco e o
bate
tem dias que amanheço
tem dias que não

naquela época, a dos tempos sombrios

não era nada fácil viver

naquele tempo, o dos tempos sombrios, as pessoas mal se viam e principalmente se viam mal
naqueles tempos sombrios, o ar é poroso o fogo é a água e a terra o chão a mão não existe
nos tempos sombrios,
muitas pessoas
morrem
muitas pessoas
correm
muitas pessoas
esperam
nos tempos sombrios
quase não se veem sorrisos não porque não existam mas porque passam
fome passam tempos passam por si por cima por nada
nos tempos sombrios
as pessoas não somos
nesses tempos
algo vai enfraquecendo
a direção do olhar
nestes tempos
de enchentes
de dentes
de

quase não sobra

naquela época, a dos tempos sombrios

lastro da lesma

“) escrever como quem constrói um labirinto |”
(Micheliny Verunschk)

no decorrer do passo, a língua cede. cede porque tropeça, porque sobeja, porque lambe, me pergunto. porque lambe a língua. digo, enquanto pastamos todos, poucos regurgitando, enquanto esperamos todos, digo, essa espera trôpega, batendo em semáforos, orações, códigos, faces. fascículos de desgraças, obras completas do belo, tijolos de ameaças, muros de seres, enquanto nessas latrinas latrinas de gente em gravatas, sem nenhuma -sofia na alça, uma terceira guerra de golpes
e eu em mim me pergunto muito depois de dormir
onde a língua cede o passo que não me acompanha nos pés
onde a língua, o verbo, a cor
do som
do tom
da voz

no decorrer do passo, a língua é sede. sede porque onera, porque almeja, porque trilhos cansam. e por que a língua lambe, me pergunto. porque lamber é como olhar a lesma. porque lamber é esse tempo que limpa o pulmão da neblina enquanto a lesma quase não se moveu. porque lamber é mover os dedos da língua. é o verbo que bate nos dentes. o verso que arranca do urro silêncio. a lombada do tempo
a língua

o labirinto da escrita

pala

delícia quando a palavra vai beliscando os dentes e escorrega no lábio dá passos de dança na língua desliza para a garganta passando pés no céu da boca como que sorrindo de ser criança que não tem a mínima noção preocupação ilusão do tempo que importa se ela morde a própria boca a palavra livre leve louca a palavra que desliza e rasga que seduz e prega que acalenta e ataca. desata na garganta amaciando aldravas. pousando unhas nas margens. caçando angústia na fonte. a palavra morde molda emula. imita. mimese driblando o referente. a palavra encerra e enleva a palavra. isca.