Poemas

(In memoriam: Tiago e Diogo e uma grande parte boa de mim)

de lembrar dos seus olhos gêmeos
das suas mãos gêmeas
do seu amor gêmeo
lembro das suas vozes nuanças
das suas pintas distintas
dos seus sonhos dormindo
das suas formas de desenhar histórias sem ler
(havia aquele homem parado de chapéu no material didático que ficou pensando na vida e morreu)
cada qual um ninho que só queria
minhanossa
onde é que mora o perigo
onde é que ronda o inimigo
onde é que está o poder
quem é que cuida não de nós criaturas com roupa passada título carteira de habilitação casa quitada plano da unimed apartamento vista pro mar vista pro céu vista com óculos de grau faxineira iptu em dia sapato pra chuva sapato pro sol sapato pra missa antivírus ah sim carne fresca pão circo acesso reprodutibilidade semáforos furados filas direitos
mas
me dá uma licencinha que eu preciso saber com a dor de quem sente os dedos sujos a boca seca a garganta murcha o olho imundo o estômago sem força mais pra reler
quem é que cuida de quem não tem discurso não tem sobrenome não tem tíquete não tem idade para já precisar ser homem correr de tiro descalço cair em hospital com barata não enxergar a folha em branco a sua vida quanto mais platão na caverna com a vista quadrada multada tachada estampada filmada ardida riscada pisada cuspida baleada
baleada
são tiros gêmeos do meu do seu dessa nossa história que nunca cedeu lugar tampouco agora pra sequer poder deitar em um manto coberto de dignidade e quem sabe ao menos uma vez na vida silêncio
não tenha pressa
não corra não chore não morra
porque agora
ouça a canção de ninar
não há violência não há crueldade não há insegurança desproteção fuga falta de moradia saúde educação comida arte prazer diversão
não há medo. não há bicho no escuro. não há polícia e ladrão. não há mais

o mundo é que segue

talvez até seja por isso não conseguir. eu me lembro, sim, da rosa e suas pétalas que não se quebraram nas minhas mãos tão pequenas, não tinham crueldade não tinham terror não tinham sangue, mas hoje. hoje não há sequer pétalas, não há rosas, não há cantos, não há o cheiro do estrume as cidades os habitantes os utensílios nas nuvens não há grama orvalho sequer lágrima o olho é um terreno árido, árduo, ardiloso. o olho tem sido voraz, algoz. e dói a memória quando sopra aquele ar no olho de areia. a memória é esse vento com a personalidade instável do mar? onde estão minhas unhas limpas minhas costas leves minha fé calma? e o tempo aquele intervalo não importa a hora? se se cavar fundo, se se cavar com força com tempo com ganas se encontra a paz? se se cavar rápido voraz cuidando para que ninguém alcance para que ninguém roube porque hoje há milhares de vilões à solta caçando, sabe, aquele descuido aquele intervalo sem vigia aquela porta aberta. por isso é preciso usar aldravas ferro fogo armas rimas. mas.

há um buraco enorme na língua.

mediocontos v

fez um balanço da vida
digo, contou os anos, os feitos, os defeitos e o que sobrava de expectativa
os resultados parecem não ter sido satisfatórios, dada sua indisposição para passar a limpo
tinha o hábito de passar a limpo
estender a roupa no varal, parar a alguns centímetros de distância, olhar por mais centímetros de tempo. talvez as cores, talvez os suores, talvez a propriedade do limpo, a chance, o sufixo
o saldo de estar autenticamente calmo triste ereto
os móveis tinham mais pó
o tempo menos
a lua sem
sentou-se no parapeito procurando inventar um parapeito mas já não havia palavras
ou seja mitos
ou seja o que for
tomou mais um café mesmo sabendo que não podia

mediocontos iv

não sabia o que dizer depois de tantas honras tantos méritos tantos nomes
pediu licença
a multidão se afastou
também não sabia para onde ir
afastou-se para a esquerda
lembrava de algum modo que a esquerda lhe era mais propícia
mas não sabia por que
viu um café que parecia parisiense
e aquilo estranhamente lhe soou familiar
talvez fosse alguma celebridade, ator de cinema, cineasta, empreendedor cinematográfico
de algum modo também aquilo lhe soava película
pediu um café
mas antes de a xícara pousar
naquela mesa dura amadeirada espelhada podia ver o seu bigode
enquanto se perguntava de onde raios tirou aquele bigode
uma multidão se formou
sequer experimentou o café
que sabor teria jamais soube
jogou a mesa com glamour e rosas no primeiro flash
socou a cara mais próxima com uma esquerda imponderável
chutou o equipamento maior
e cuspiu no garçom engomado
nunca soube dizer por que
nem para onde estava indo

mediocontos III

havia entrado naquela rua sem a mínima ideia do que fazer ali, assim como, pensava, parece que em sua vida.
não se demorou na comparação e decidiu exercitar alguma coisa que já aprendeu na.
algumas reflexões, vários passos.
na análise da envergadura do asfalto, reuniu muitas memórias da infância. os buracos as pedras as quedas aquele tipo de choro que já não mais. então debaixo daquela cratera de humanidade rugosa quente paralítica no asfalto, o cheiro da terra molhada quando cuspiu.
quis lembrar dos hábitos dos seus. quando se sentava à porta e vinha o cheiro de depois do almoço e poucos passantes e o banco de madeira a folha morrendo saindo da árvore tão despretensiosamente que inveja a folha dançando no ar que coragem a folha ameaçando o chão que desenvoltura a folha quase caindo e vindo o vento que paz a folha caindo e ficando ali por muito tempo. apenas vendo a folha vivendo a vida que.
o ímpeto.
bateu em uma porta.
o nada.
quando abriram a porta, não sabia o que dizer quando disse.
você pode me dar um café, por favor?

mediocontos II

tem vinte medidas provisórias para o próximo ano.
se falhar a expectativa do riso, expectorante.
se calar quando devia falar calmamente nem muito nem pouco só o suficiente, mais água.
se por acaso buzinar mesmo estando em direito em sentido em vias de, cortes.
se desistir, multa. em convivência social.
porque espera ter fôlego, não esperança.

mediocontos I

era uma fotografia amassada.
não, não havia rostos. pernas pés barras de calça rasgos.
levantou-se da cadeira do bar. roubou um cigarro da outra mesa vazia. passou pela pista de dança como se aquilo não tivesse som. sentou-se no meio-fio.
eram três horas da madrugada.
pessoas vestiam jeans ou nada.
táxis dormiam.
tirou o isqueiro do bolso.
cigarro na boca.
e ocorreu.
o olhar quando para.
não importa onde quem o quê.
tirou a fotografia do bolso e começou a nomear os corpos.
não soube quanto tempo ali, mas, quando tirou o cigarro da boca para acender, saiu com a pele do lábio.