mediocontos iv

não sabia o que dizer depois de tantas honras tantos méritos tantos nomes
pediu licença
a multidão se afastou
também não sabia para onde ir
afastou-se para a esquerda
lembrava de algum modo que a esquerda lhe era mais propícia
mas não sabia por que
viu um café que parecia parisiense
e aquilo estranhamente lhe soou familiar
talvez fosse alguma celebridade, ator de cinema, cineasta, empreendedor cinematográfico
de algum modo também aquilo lhe soava película
pediu um café
mas antes de a xícara pousar
naquela mesa dura amadeirada espelhada podia ver o seu bigode
enquanto se perguntava de onde raios tirou aquele bigode
uma multidão se formou
sequer experimentou o café
que sabor teria jamais soube
jogou a mesa com glamour e rosas no primeiro flash
socou a cara mais próxima com uma esquerda imponderável
chutou o equipamento maior
e cuspiu no garçom engomado
nunca soube dizer por que
nem para onde estava indo

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mediocontos III

havia entrado naquela rua sem a mínima ideia do que fazer ali, assim como, pensava, parece que em sua vida.
não se demorou na comparação e decidiu exercitar alguma coisa que já aprendeu na.
algumas reflexões, vários passos.
na análise da envergadura do asfalto, reuniu muitas memórias da infância. os buracos as pedras as quedas aquele tipo de choro que já não mais. então debaixo daquela cratera de humanidade rugosa quente paralítica no asfalto, o cheiro da terra molhada quando cuspiu.
quis lembrar dos hábitos dos seus. quando se sentava à porta e vinha o cheiro de depois do almoço e poucos passantes e o banco de madeira a folha morrendo saindo da árvore tão despretensiosamente que inveja a folha dançando no ar que coragem a folha ameaçando o chão que desenvoltura a folha quase caindo e vindo o vento que paz a folha caindo e ficando ali por muito tempo. apenas vendo a folha vivendo a vida que.
o ímpeto.
bateu em uma porta.
o nada.
quando abriram a porta, não sabia o que dizer quando disse.
você pode me dar um café, por favor?

mediocontos II

tem vinte medidas provisórias para o próximo ano.
se falhar a expectativa do riso, expectorante.
se calar quando devia falar calmamente nem muito nem pouco só o suficiente, mais água.
se por acaso buzinar mesmo estando em direito em sentido em vias de, cortes.
se desistir, multa. em convivência social.
porque espera ter fôlego, não esperança.

mediocontos I

era uma fotografia amassada.
não, não havia rostos. pernas pés barras de calça rasgos.
levantou-se da cadeira do bar. roubou um cigarro da outra mesa vazia. passou pela pista de dança como se aquilo não tivesse som. sentou-se no meio-fio.
eram três horas da madrugada.
pessoas vestiam jeans ou nada.
táxis dormiam.
tirou o isqueiro do bolso.
cigarro na boca.
e ocorreu.
o olhar quando para.
não importa onde quem o quê.
tirou a fotografia do bolso e começou a nomear os corpos.
não soube quanto tempo ali, mas, quando tirou o cigarro da boca para acender, saiu com a pele do lábio.

deste tempo de dentes esmaltados de ódios, onde já não há mais verdade. já houve? neste tempo em que opiniões mudam conforme o valor, que a moeda nunca é ética. o que é ética? há mãos que lutam violentamente por educação e saúde. violentadas. este tempo em que mais vale temer que dormir com dignidade. que respeito já não tem mais verbo. quantos louros para ponderar? paciência na mesma mão da passividade. mentira na mão da omissão. rimas pobres, televisores de cabeceira, seres humanos inanimados. este tempo que não tem mais lugar. tem pó? para voz. para ouvido. para nãos. anuncia, tempo, um passo, um bem, uma virtude? dá, sopro, um pouco mais de energia, quem sabe um suspiro, uma paz, uma noite que não seja, em algum momento, oca? que a vida tem sido uma dificuldade de crença. uma pérola branca no branco nu. vista-se. é preciso chegar, é preciso sair, é preciso ficar. é preciso? e não suportar: é preciso? descansa, ímpeto, que não há mais vaga no corpo. no coro. de cor. saudemos como se fôssemos um. brinde nos jantares, arroto no banheiro, vazio no cílio. que já não sabe chover. que a chuva lá fora volta. neste tempo de ruínas onde a história não brota. neste tempo, ouça bem, futuro, em que não há mais dois pontos?