mediocontos I

era uma fotografia amassada.
não, não havia rostos. pernas pés barras de calça rasgos.
levantou-se da cadeira do bar. roubou um cigarro da outra mesa vazia. passou pela pista de dança como se aquilo não tivesse som. sentou-se no meio-fio.
eram três horas da madrugada.
pessoas vestiam jeans ou nada.
táxis dormiam.
tirou o isqueiro do bolso.
cigarro na boca.
e ocorreu.
o olhar quando para.
não importa onde quem o quê.
tirou a fotografia do bolso e começou a nomear os corpos.
não soube quanto tempo ali, mas, quando tirou o cigarro da boca para acender, saiu com a pele do lábio.

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deste tempo de dentes esmaltados de ódios, onde já não há mais verdade. já houve? neste tempo em que opiniões mudam conforme o valor, que a moeda nunca é ética. o que é ética? há mãos que lutam violentamente por educação e saúde. violentadas. este tempo em que mais vale temer que dormir com dignidade. que respeito já não tem mais verbo. quantos louros para ponderar? paciência na mesma mão da passividade. mentira na mão da omissão. rimas pobres, televisores de cabeceira, seres humanos inanimados. este tempo que não tem mais lugar. tem pó? para voz. para ouvido. para nãos. anuncia, tempo, um passo, um bem, uma virtude? dá, sopro, um pouco mais de energia, quem sabe um suspiro, uma paz, uma noite que não seja, em algum momento, oca? que a vida tem sido uma dificuldade de crença. uma pérola branca no branco nu. vista-se. é preciso chegar, é preciso sair, é preciso ficar. é preciso? e não suportar: é preciso? descansa, ímpeto, que não há mais vaga no corpo. no coro. de cor. saudemos como se fôssemos um. brinde nos jantares, arroto no banheiro, vazio no cílio. que já não sabe chover. que a chuva lá fora volta. neste tempo de ruínas onde a história não brota. neste tempo, ouça bem, futuro, em que não há mais dois pontos?

poiesis

enquanto os risos escorriam nos pés
na grama
nos galhos
nos céus
dos outros no tempo
em que sempre voltamos
jamais estaremos

uma criança, longe, muda, exangue, sentada
num canto daquele muro
(como no canto dos outros muros que agora a
derrubam
feito um sino mudo)

nesse canto lhe deram uma rosa
era uma rosa comum, cor-de-rosa, jovem, justa, virgem
não soube o que fazer com tanta verdade
embora sequer soubesse disso
de que agora a memória sabe
do jeito que a memória sabe saber reticente

poderia ter passado a tarde toda
aquela criança
talvez eras
com a rosa nas mãos

poderia dizer do cheiro daquela pétala uma obra aberta
do tônus firme do seu corpo frágil
das inverossimilhanças do contorno
na sua cor silenciosa
dos rosas da rosa

se fosse dizível

mas quando o sol se punha
naquela época

pés sujos
risos suados
cabelos ventados
fôlegos rotos

mas a rosa
intacta
naquelas mãos tão pequenas meu deus e que já sustinham o medo
de ser túmulo

qual teria sido o erro
que cometeram aqueles dedos
incapazes ainda de todo mal que agora teciam tão displicentemente

tomaram-lhe a rosa sem
não foi sequer capaz de

despedaçaram todas as pétalas e sépalas
ouviam-se ranger suas veias
enquanto ensinavam que era assim
que se brincava com as flores

foi a primeira vez para ela
que a poesia
colheu o seu silêncio
humano

Por que não me lembro? Por que não me esqueço? Por que bato entre as paredes dolosas errando as verdades? Daqui, cato passados na memória como unhas quebradas num tapete felpudo, esmalto lembranças, revivo ranhuras

batendo em paredes
errando verdades
crivando mistérios
lixando misérias

conjugando no presente horas sem verbo
ainda que crostas frestas línguas
sons subalternos
mal saibam devir

onde eu melhor me encaixo
é no teu braço

não essa pele fácil
límpida
lisa
de que fala a aparência dócil do verbo.

digo do que há de ambíguo
da incongruência dos poros
do sabor do gemido
da alma
completamente heterônima
que habita
a película a moldura o dobre da tinta quando dobra
do teu braço