18
Nov
09

Pequenos mundos caóticos IV

ele desatou num choro explosivamente calado, que expurgava todo seu sangue à face, toda sua alma à cara, todo o seu verbo a sal e discou como se arrebentasse todas as caras dela e toda ela mastigada e vil foi despejando entremeado de dente na voz rouca que ela acordou, de navalha foi rasgando palavra que nunca tinha que nunca viu ela assustada não tinha espaço pra bolso, pra trote, pra alfabeto e ele vinha de tanto lugar que não saía exatamente coesão mas um som estúpido outrora agora escancarado, cortado, crescendo podado de ira que era extremo e intraduzível sequer inteligível sequer. na sobra de um escarro da música que agora saía da sua língua que não queria calar embora respiração fizesse parte, e uma parte trucidada, partida em pedacinhos como uma gelatina ao chão, na sobra de um escarro da sua língua ela gemia de medo não de pavor não de histeria não de explosão e som e cuspe, era como se sentisse adesivo na pele o amontoado de línguas dele sulcando os vãos da sua própria garganta, que era dele e que era ele a corda o ácido a incidência de organismo no corpo daquela poesia era o som, era um poema como um feto ressequido, como uma estrada negra num amontoado de noites e uma palma na solidão de dedos sem tato, sem transição, sem fôlego, sem calma, sem isso não saberia se. ele poderia parar agora que ouvia dela seu silêncio mais morto mais carnívoro mais gêmeo do teu que era doutro susto doutra mancha doutra mas ela não sabia disso, ele não sabia o dito a letra o risco pra começar a dizer da morte e da outra a vida que queria a morte que daria o crime que seriam o tempo que cobria o pó que cairia a memória. que há

14
Nov
09

corpo

Àquele corpo que cai como um pôr de sol banido, como o último raio infiel que beija a folha recém-morta, como matizes da pele da terra benzida para o breu sem prece.

Àquele corpo maldito, quebrado, rarefeito como o céu de uma única estrela, como o amor negado das nuvens deixadas no segundo plano do negro, como o cinza baixado no ar entre o olho e o cinzeiro.

Àquele corpo estriado, mantido, cobalto, criado sob asas de pós, como uma lua programada, como uma noite sustentada pelo silêncio que escorrega numa madrugada de gelos.

Àquele corpo passageiro, gemido seco, trêmulo, suado, refeito, como o orvalho gozado e estendido na ponta dos leitos.

Àquele corpo acossado, sólido e armado que cumprimenta a manhã, como a janela semifria que espera pra sempre, como a flor, o chapéu, a covardia, o passeio que se esquecem de rir, como o trânsito soprado nos poros ainda desacordados e iludidos do bem, como o amarelo guiado, sedento e arfado com que o sol não responde.

Àquele corpo expandido que, em algum momento assistido, é um túnel no buraco estrondoso da luz.

Àquele corpo que cai, como uma voz de veludo no torniquete da vida.

13
Nov
09

O descalço íntimo

Às vezes, a imensidão que preenche os meus becos cegos bate em portas virgens de uma isenta percepção, espreita verbos inativos e batiza uma língua eximida de palavras. São como linhas tateando um céu de dores, os meus mares de espera, as florestas na curva do nicho do que foram desejos. As barras desse íntimo coçam vales incolores, depõem-se voláteis como o som do beijo, regando os pés descalços da alma, que balançam, chacoalham e pincelam os sabores de uma imensidão a nado.
E eu belisco a respiração do vasto.
Corro os olhos pelos galhos da íris.
Bebo o som do só.
Eu perco a gota
no lago.

Caminho

06
Nov
09

Pequenos mundos caóticos III

- o que me escura é vesgo, é tormento, é uma cratera amante no assoalho. é muito bom que você escute bem isso, porque talvez isso bem te levante, te interceda, te desejo até deus. o que me corrói é isso que eu faço que eu digo que eu rasgo de verbo de tecido de mente, é essa roupa suja, seu perfume gasto, sua voz enorme, que é mancha quando justamente me ouve, porque eu sei que é no meu dito que estão tuas cordas, tuas linhas, tuas fissuras de pele, tua cortina amarela. não é mais sol o que entra nesse teu cubículo vestido, porque sabe que tudo o que digo é teu nu, é teu ventre, é tua miragem avessa que apalpa teu tato. o que mente, o que mente, o que mente é a minha linguagem, a minha renitência, a minha mesura. rejeita a pátria de tua dor, sua esfera nos vasos. eu não quero te tirar daí, eu não quero te mudar de nada, eu não quero te criar coragem. eu te sou o caos. o que faço aqui nessa voz é te despir o sexo, recusa a minha língua e te recusa os mundos, todos os teus fantasmas não são noturnos nem bêbados nem insanos nem versos, são na tua carne crua. abre tua boca, abre teu clero, abre a tua in sa ni da de. e me atira da primeira porta que não for ausência.

01
Nov
09

vestido de água

na face um vestido
de águas secadas

vestígios do amparo
camadas de falta

foto de josé neto

Fotografia: José Neto
Poema: Dheyne de Souza

31
Oct
09

Pequenos mundos caóticos II

- eu não estou bem de novo, tentada, ela disse.
do outro lado silêncio.
- você ainda não está falando comigo?
silêncio.
- foi por causa da porra daquele vidro quebrado? você quebrou muito mais coisa em mim e nem por isso
ele desligou.
- eu te odeio porque você me faz ser pior. é por isso. você me faz comer terra preta, grão de rima, lixo bíblico.
talvez um suspiro.
- você não precisa mesmo dizer nada. você precisa comprar a miséria de um cão. quiçá um picasso.
um cinzeiro, uma garrafa, uma espera de vidro no chão.
- você não tem um pudor pra atirar no teu chão preferido? por que não vem aqui e não quebra a minha cara, heim? não destrói o que não te tem.
talvez beatles.
- você tá no mesmo barco que eu, por que não para de olhar pro fundo esperando que fure? cai ao mar, se atira, morre cego de sol
talvez choro.
- então eu vou falar do que me escura.
talvez nada.

31
Oct
09

solidão

Memória (lápis aquarelável sobre papel telado) Memória (lápis aquarelável sobre papel telado) pb

Memória (lápis aquarelável sobre papel telado)

 

 

 

 

 

 

Campos (lápis aquarelável sobre papel canson)

Campos (lápis aquarelável sobre papel canson) pb

Campos (lápis aquarelável sobre papel canson)

29
Oct
09

estudos

Ventos (guache sobre papel canson)
Ventos (guache sobre papel canson)

Bocas (guache sobre papel canson)
Bocas (guache sobre papel canson)

Cascas (guache sobre papel canson)
Cascas (guache sobre papel canson)

Esconderijos (guache sobre papel canson)
Esconderijos (guache sobre papel canson)

27
Oct
09

sob o fora

sob o fora

26
Oct
09

As mágoas

As mágoas (guache sobre papel telado)

As mágoas (guache sobre papel telado)

As mágoas (guache sobre papel telado) pb




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