- o que me escura é vesgo, é tormento, é uma cratera amante no assoalho. é muito bom que você escute bem isso, porque talvez isso bem te levante, te interceda, te desejo até deus. o que me corrói é isso que eu faço que eu digo que eu rasgo de verbo de tecido de mente, é essa roupa suja, seu perfume gasto, sua voz enorme, que é mancha quando justamente me ouve, porque eu sei que é no meu dito que estão tuas cordas, tuas linhas, tuas fissuras de pele, tua cortina amarela. não é mais sol o que entra nesse teu cubículo vestido, porque sabe que tudo o que digo é teu nu, é teu ventre, é tua miragem avessa que apalpa teu tato. o que mente, o que mente, o que mente é a minha linguagem, a minha renitência, a minha mesura. rejeita a pátria de tua dor, sua esfera nos vasos. eu não quero te tirar daí, eu não quero te mudar de nada, eu não quero te criar coragem. eu te sou o caos. o que faço aqui nessa voz é te despir o sexo, recusa a minha língua e te recusa os mundos, todos os teus fantasmas não são noturnos nem bêbados nem insanos nem versos, são na tua carne crua. abre tua boca, abre teu clero, abre a tua in sa ni da de. e me atira da primeira porta que não for ausência.
Pequenos mundos caóticos III
vestido de água
na face um vestido
de águas secadas
vestígios do amparo
camadas de falta

Fotografia: José Neto
Poema: Dheyne de Souza
Pequenos mundos caóticos II
- eu não estou bem de novo, tentada, ela disse.
do outro lado silêncio.
- você ainda não está falando comigo?
silêncio.
- foi por causa da porra daquele vidro quebrado? você quebrou muito mais coisa em mim e nem por isso
ele desligou.
- eu te odeio porque você me faz ser pior. é por isso. você me faz comer terra preta, grão de rima, lixo bíblico.
talvez um suspiro.
- você não precisa mesmo dizer nada. você precisa comprar a miséria de um cão. quiçá um picasso.
um cinzeiro, uma garrafa, uma espera de vidro no chão.
- você não tem um pudor pra atirar no teu chão preferido? por que não vem aqui e não quebra a minha cara, heim? não destrói o que não te tem.
talvez beatles.
- você tá no mesmo barco que eu, por que não para de olhar pro fundo esperando que fure? cai ao mar, se atira, morre cego de sol
talvez choro.
- então eu vou falar do que me escura.
talvez nada.
solidão

Memória (lápis aquarelável sobre papel telado)


Campos (lápis aquarelável sobre papel canson)
estudos

Ventos (guache sobre papel canson)

Bocas (guache sobre papel canson)

Cascas (guache sobre papel canson)

Esconderijos (guache sobre papel canson)
sob o fora

As mágoas

As mágoas (guache sobre papel telado)

Pequenos mundos caóticos I
- De que te cansa, ele pergunta.
- Da renitência. Do proibido que é desistir, murmura ela.
- Eu não sei o que te dizer.
- Não diga, sustém um grito.
- E te deixar assim?
- E me deixar como?
- Não sei.
- Não, não sabe.
- Quer alguma coisa?
- Um chá?
- Gelado? Ele pensa um pouco tarde.
- Me traga um poema, uma pequena epifania, ela pensa um pouco exausta.
- Desculpe, respira.
- Não é o pouco, é do que o pouco anda.
- Por todo o corpo?
- Por toda esfera, mente.
- Não é você que está aqui.
- Você está certo, sorri de um terno morto.
- Então vá embora, ele.
- Você não devia ter aberto, chorando, sai.
- Vem, desculpa-se.
- Eu percebo as coisas tanto.
- Não lembra.
- Eu faço o que, espero que ocorra? Tenta.
- Eu não sei o que você precisa fazer. Eu não sei o que eu preciso fazer, gasto.
- Sustenho tanta imagem, tanta premonição, tanto pássaro, devir, vai até a janela.
- Vamos, diz.
- Há nuvens quedando desejos, trucidando juízos, resgatando uma transgressão de fotografias e pervertidas zombam do ócio, oscilando palavras sutis, elas mentem, elas julgam por trás dos tons, elas constroem molduras de madeira que dizem de vidro que dizem aderentes que dizem chover. Há telhados podres sustendo um céu nobre, de musgo, cimento, barro curtido, prometem vis quedas, juízes gnomos, surrar as paredes, vencer azulejos, viver de poeira, de vento, de instante. Há fios circulando, gemendo prazeres, cobrindo perfumes, promessas, pecados, e mentem também, e calam seus medos, desvios, seus meros, interrompem a lágrima, que jaz petrificada nos seus cílios espessos, eles cerram a retina, eles mastigam o frio e engolem angústia, e descaradamente gargalham. Há reflexos nos postes, nas janelas, nas pias, frinchas, nas alianças pousadas, eles gritam, eles falam, eles não medem absolutos nem nada, eles dizem verdades, eles inauguram verossimilhanças e amontoam cidades de nu, e assim eles cospem, das praças, dos filtros, das alamedas pequenas, águam mundos caóticos, colhem tecidos de diversos brancos, até aqueles que não são a olho nu, eles refletem os buracos mais feios, mais fundos, mais negros, as imperfeições das cutículas, os pelos podados, as tiras nos seios, os lábios, os freios, as rimas mais pobres, os enredos, escuta.
- Eu preciso que vá, vê o chão.
- Você precisa de teto, ela.
- Você está cansada, afasta-se.
- Você está nu, soletra.
- Nós não.
- Não, é verdade, à porta.
- Não olhe pro céu.
- Não olhe pro chão.
- Não me diga o que fazer.
- Não te digo mais nada.
- Não, diz.
- Bye.
- O seu mundo é caótico.
- E os teus?
- Por que você sempre faz isso?
- É você quem não me deixa sair, bate a porta.
- Eu não vou mais abrir, grita de dentro.
- Você mente. Você não sabe o que diz, lamenta, tropeça, engasga, volta.
- Eu te amo, tranca.
- Eu te mato, pedra.
algo
é o tempo a caminho
a ausência no trânsito
a finitude dos carros
e as janelas transbordando
saudades que não tiveram
um assento.
Pescas
esgotar no teu olho
uma banheira de verbos
na língua
uma chuva de telas
em branco
na palheta de teu dorso
colorir no teu riso
um pedaço de devaneio
nos dentes
mordidas de espaços
no vulto
das linhas que escapam
do corpo
arremessar nos teus vãos
escandidos de pó
um beijo de escândalo
um gosto arranho
sussurro bruto
e iscar a suspensão
do avesso
do teu Outro.